sábado, 3 de outubro de 2009

O Analista Urbano

Publico aqui uma charge do 1000ton. Grande desenhista e gente muito boa!! Deixem suas interpretações nos comentários.


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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Gestando Sonhos

Fazer Gestão Pública exige competência e paciência... Por sete anos e meio fui Gestora e minha era como tal se aproxima do fim... Meu amigo e Diretor Edmar Oliveira chegou ao limite de suas energias, a máquina burocrática e uma boa dose de autoritarismo o levaram à rendição... Não havia como seguir adiante com tanta arbitrariedade... Baixei as armas também... Ambos nos rendemos à impossibilidade dos atravancamentos burocráticos, mas teimosos por natureza ainda acreditamos no sonho da Reforma Psiquiátrica.

Ele lançou um livro lindo "Ouvindo Vozes" ... Ser Gestor para as Pessoas, Gerenciar Sonhos e Ouvir os Sonhos de quem Sonha ... Sobre isso ele escreve maravilhosamente bem. Gestamos muitos sonhos de nossos pacientes... Sair tem sido um processo triste e embora teimosa hoje me vi sucumbida a uma imensa melancolia...

Ao abrir minha agenda me deparei com uma anotação que fiz há bastante tempo atrás: : "Um ano de Helton no Prezunic!" Helton é um rapaz sobre quem fiz uma postagem abaixo ... Um dos muitos clientes cujo sonho de uma vida melhor nós ajudamos a gestar! Um jovem muito adoecido pela psicose, com inúmeras internações psiquiátricas, que foi tratado com afeto e intensidade de cuidado. Ele entrou no nosso Projeto Gerência de Trabalho há um ano atrás ... Integrou-se ao mercado de trabalho com nosso suporte e hoje comemora um ano de emprego com carteira assinada no Supermercado Prezunic.
Minha melancolia se apaziguou um pouco... Dessa " Gestão de Sonhos" a burocracia jamais entenderá, mas também jamais terá o prazer de receber o sorriso que se vê na foto acima ... Minha era como Gestora Pública se vai, mas minha emoção ao ler sobre a vitória de Helton me fez entender que meu compromisso com a "Gestão de Sonhos" fica comigo e vai para aonde eu for!
Parabéns Helton! Publico a foto dele, pois ele mesmo me autorizou. Queria ser visto na internet!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Os Encantos da Maluquice


Andando pela Lapa de bar em bar com meus amigos Edmar e Chico Regueira, nos deparamos com a seguinte cena: um bar minúsculo, um microfone, uma guitarra e dois cidadãos fazendo um show para uma MULTIDÃO de TRÊS pessoas. Com a nossa chegada ficou mais lotado com SETE pessoas... Havia uma magia ali que nos encantou de imediato... Para Ribamar o guitarrista e sua estrela cantora parecíamos ser o maracanãzinho lotado. Tocavam e cantavam plenos de orgulho e sentindo-se celebridades. Havia uma felicidade verdadeira em suas faces, em seus movimentos, em suas músicas bregas, não tão bem cantadas assim... Isso não importava, se apresentavam como genuínos artistas. Ribamar diz que morou na França, quando perguntei em qual local ele se enrolou, disse que só o antigo empresário sabia...

Meu amigo Chico quis cantar e Ribamar deixou... Generoso dividiu sua glória com Chico! Olhando para Ribamar eu me lembrei de muitos pacientes que tratei e que no encontro com essas expressões de arte na rua, acabaram dando certo, do seu jeito... Às vezes um pouco de loucura é bom, inconsciente a céu aberto, menos recalque... Eu naquele palco - se soubesse cantar- me sentiria a última das mortais por ter uma platéia tão minúscula... Ribamar não, se sentia e se portava como Roberto Carlos, o Rei... Convenhamos que tirando o sofrimento da loucura, vale a pena ser um pouco louco! Nós nos divertimos demais com o Rei Ribamar! Ele é show!


sábado, 15 de agosto de 2009

Pesquisa Estigma

Na reta final da novela comecei minha pesquisa sobre o impacto das histórias de Tarso e Ademir no estigma contra pessoas que sofrem com transtornos mentais. Entre no blog da Glória Perez - http://gloriafperez.blogspot.com/ - e lá procure o link para o site da pesquisa. Por favor, participe se você for espectador assíduo da novela, se não tiver parentes de primeiro grau com doença mental e se não for profissional de saúde mental! Espero você por lá!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Mais louco é quem me diz ... E quem não é solidário


A menina da postagem abaixo chegou da rua outro dia faminta, cansada e feliz... Foi tomar banho e depois almoçar. Enquanto comia, uma outra paciente tentava tomar seu suco. Eu preocupada tentava convencer a paciente, que já havia almoçado, a deixá-la quieta. Afinal, ela estava cansada e faminta, muito embora feliz, muito feliz. A rua faz bem para ela. A rua ensinou muito a ela.
A menina se alimentava e parecia alheia ao movimento ansioso de minha parte, tentando salvar seu copo de suco. Ilusão a minha... Quando foi tomar o suco, bebeu apenas a metade. Entregou-me o copo e disse: dá para ela Patrícia.
Emocionou-me sua solidariedade. A rua ensina isso. Dividir é questão de sobrevivência. A menina sabe dividir... Louca, órfã, de rua, mas ela sabe dividir... Muita gente dita sã, com muito mais estrutura não sabe... Depois a louca é a menina!


quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Menina que Gosta da Rua


Um dia ela me disse: Eu nasci da barriga de Deus e cai no meio da rua! Conheci a menina com nove anos. Andarilha na cidade do Rio de Janeiro. Fugia de casa desde os cinco anos. Um dia a mãe resolveu não mais procurar por ela. Ela voltava mesmo assim e fugia de novo. A mãe chegou a dizer, na frente dela, que preferia que ela já tivesse morrido. O que fez essa mulher ter tanto horror da própria filha jamais soube e jamais saberei...
O que sei é que a menina se recusou a morrer de fato... Morreu no desejo da mãe e isso é uma morte sem dúvida, mas viveu como pôde se encontrando com os desejos projetados na vida das ruas ... Na rua se formou . .. Conhece tudo por onde anda. Escolheu as praias da Zona Sul para estar ... E enlouqueceu ... Delirantemente diz-se filha de Deus designada para morar na rua. Faleceu no desejo da mãe, mas renasceu no delírio como filha de Deus. Como uma vez li de uma poeta paciente: Às vezes a dor não tem alívio, é só delírio! E no delírio a menina editou uma nova história para sua origem...
Tratei dela por muito tempo. Descobri que qualquer sucesso só seria possível indo para a rua com ela. E eu fui. Fizemos parceria com um abrigo e ela foi melhorando. Com o tempo já conseguia passar o dia na rua e voltar à noite para o abrigo. Um dia viajei e fiquei quatro anos sem vê-la. Ficou sendo bem cuidada por outras pessoas. Hoje ela está com 21 anos. Soube outro dia que estava internada compulsoriamente numa enfermaria psiquiátrica. Encontrava-se sem sintomas agudos e sentia saudade da rua. Ameaçava fugir... Fui buscá-la para vir morar numa moradia assistida e ter portas abertas para ir e vir. A menina fala de como precisa da rua, de uma forma visceral ... A rua é como se fosse ela mesma... Abrir mão de estar na rua é abrir mão de viver. Sair da rua é morrer. A vida está na rua. E ela faz sintomas clínicos: dispnéia, taquicardia... É um sofrimento atroz... Trabalhar com ela exige entender que precisamos deixá-la ir e só assim conseguir que ela volte.
Nada tem de fácil esse entendimento... Aliás desisti de fazer promotores e juízes entenderem. Só o contato com ela favorece alguma compreensão. E a menina parece saber disso: Deixa eu ir falar com a Juíza, eu explico para ela!
Agora a menina está nas ruas de novo. Não quis ficar na casa que eu lhe arrumei. Prometeu-me que vai voltar. Passo pelas praias na esperança de encontrá-la. Já tivemos desses encontros no passado. Essas conexões muitas vezes acontecem com os pacientes psicóticos. A menina já me encontrou de madrugada andando na praia de Copacabana na volta de um show, num restaurante no Leme ... Irei encontrá-la de novo...
Atender pessoas como ela exige uma quebra radical de paradigmas, uma abertura profunda para abraçar a intensidade de sua diferença e uma responsabilidade grande, mas sem medo do risco. A menina nos pede isso.
Quando estava longe tive um sonho com ela. No avião, indo para o país no qual morei por um ano e meio, de repente olhei para o lado e a vi. Surpresa disse que ela não poderia estar ali, que eu estava indo para longe e perguntei como ela havia entrado no avião. Ela sorriu e me disse: Eu vim na sua mala, Patrícia...
A menina que gosta da rua continua na minha mala subjetiva profissional... Ela me ensinou muito do que sei sobre psicose e muito do que eu não sei... Acredito que ela irá voltar, pois ela sabe que entendo o quanto ela necessita da rua e que a deixarei ir sempre que precisar ... Essa crença, ainda que angustiada, é o que me faz suportar a espera por um um novo encontro!
PS. Há alguns dias atrás ela reapareceu (30/05/2009)!

domingo, 26 de abril de 2009

Caminhos que "Desestigmatizam"?


O personagem Tarso, vivido brilhantemente pelo Bruno Gagliasso, tem dado muito o que falar. Todos os dias na minha sala, eu recebo clientes que vêm comentar comigo sobre as cenas da novela. Sentem-se identificados com o que Tarso está passando e felizes por estarem sendo vistos como pessoas que adoeceram e sofreram muito, trincando o imaginário social para o qual os esquizofrênicos são todos violentos e perigosos.

Bruno, com sua atuação perfeita, tem produzido em muitos que assistem à novela, uma vontade de cuidar. Ouço as pessoas dizerem que gostariam de ajudá-lo, que desejariam convencer seus pais a aceitarem o tratamento. Tarso tem despertado mais ainda a curiosidade sobre a doença e seu processo de desencadeamento. A loucura produz horror, mas através da novela tem produzido empatia e curiosidade. Pelo menos, esse é o retorno que tenho recebido!
A que se deve o sucesso da atuação do Bruno? Tive a oportunidade de acompanhar o ator durante a gravação para a matéria do Fantástico. Infelizmente, não usaram o que de melhor ele falou. Bruno conviveu de perto com pessoas que sofrem de esquizofrenia, dividiu momentos importantes com Hamilton, grande cantor e compositor do Harmonia Enlouquece e se inspirou nele para compor o Tarso. Bruno falou sobre sua própria travessia ao superar seus preconceitos, disse ser amigo de Hamilton e que nunca tinha tido um amigo esquizofrênico antes. Bruno mostrou seu envolvimento com a campanha social e acredita que seu personagem tem a tarefa de dar um golpe no estigma. Bruno revelou um compromisso com todos que convivem com a doença mental esquizofrenia. Boa parte de sua brilhante atuação, na minha opinião, deve-se ao respeito do ator pelos portadores da doença.
Talvez Bruno não tenha ainda idéia do que está fazendo... Eu também não sei o tamanho do impacto da novela, por isso pretendo pesquisar esse aspecto como parte do meu doutorado. O que penso, por agora, tem relação com o que Goffman coloca em seu livro sobre estigma. No livro, o autor aponta a possibilidade de três tipos de estigma: das abominações do corpo, das culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca ou não naturais, dentre elas, a prisão, o vício, o distúrbio mental, o homossexualismo e os estigmas tribais de raça, nação e religião. Goffman acentua que o processo de estigmatização tende a passar pela crença de que alguém com um estigma não é completamente humano. Focando apenas o grupo do estigma das culpas de caráter individual, dentro do qual Goffman coloca a loucura, penso que esse grupo mais do que os outros conta com mecanismos psicológicos. Portanto, imagino que o sucesso de Tarso tenha relação com a construção de um olhar sobre o louco que o HUMANIZA, confrontando o mecanismo de desumanização que Goffman descreve. Bruno tem sido extremamente eficaz em mostrar um Tarso humanizado, sem exageros, sem caricaturas, sem pieguice ... Isso toca no processo de estigmatização, incidindo sobre um dos seus elementos geradores, justamente a crença de que loucos não são completamente humanos. Tarso está produzindo dúvidas sobre isso e é ai que eu acredito que ele esteja iniciando um golpe no estigma!!
Há ainda muito por acontecer! Tarso tem um longo caminho pela frente. Desde já, partilho com vocês minhas primeiras elaborações e principalmente minha alegria de ver a novela e Bruno com tanto sucesso!!!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Dogmas, Diferenças e a Reforma Psiquiátrica

DOGMA é uma crença / doutrina imposta que não admite contestação. São afirmações absolutas que não permitem discussão, um conjunto sistemático de representações, normas ou regras que indicam ou prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar. Também indica o que esses membros devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e fazer (wikipédia – enciclopédia livre online). Portanto, dogmas são inimigos da diferença. Para os dogmáticos quem pensa diferente ocupa um lugar oposto no front da guerra e, como inimigo, deve ser eliminado.
Uma das experiências mais fortes da minha vida aconteceu durante o um ano e meio em que morei nos EUA, como já contei em outra postagem, convivendo com pessoas de diferentes países. Uma amiga da Palestina um dia conversou comigo por mais de duas horas. Ao final da conversa, com os olhos marejados de lágrimas, me agradeceu por tê-la ouvido sem julgá-la. Minha amiga me contou sobre sua dor, sobre seu ódio dos Israelenses, sobre as experiências dolorosas que viveu. Demonstrou submeter-se a um dogma e acreditava totalmente que o conflito do Oriente Médio jamais terá fim, pois não há possibilidade de os Palestinos ou os Israelenses abrirem mão de suas teses sobre a terra prometida. Não há mudança possível, para ambos os lados, segundo minha amiga. E o ódio se dá, pois um povo contesta o dogma do outro.
O que me permitiu ouvi-la contar tantas atrocidades por tanto tempo foi perceber que ela era alguém doce, especial, engajada, inteligente, mas tomada, dominada por um dogma. Incapaz de abrir mão dele, sem sentir-se traindo seus pais, seu povo e a si mesma. E sofrendo demasiadamente com isso, pois no fundo ela sabia que havia algum equívoco naquilo tudo. O ódio havia se tornado uma questão ética e política naquele contexto. Minha amiga me emocionou e talvez eu jamais consiga transmitir para ela, o que essa conversa produziu em mim. Até hoje nos escrevemos de vez em quando ...
Tendo sido militante política de um grupo de esquerda construí-me numa ideologia muitas vezes sectária. Ainda acredito na esquerda, nos ideais socialistas, mas minha experiência com gente de tantos países diferentes e, em especial, com minha amiga Palestina me fez entender que o sectarismo só serve à política do ódio. Uma estratégia nada revolucionária de propagação do horror e da destruição. Sendo, hoje, uma militante da reforma psiquiátrica e uma engajada em projetos de inclusão social para os diferentes, vejo e sinto no quanto minha amiga me ajudou.
Domingo passado Ferreira Gullar escreveu contra a lei 10.216, a lei que legitimou a reforma psiquiátrica no Brasil, propondo o fim dos manicômios e abertura de serviços substitutivos como os CAPS. O poeta é contra a lei, pede a revogação dela, tem dois filhos esquizofrênicos, diz que a lei dificulta o tratamento de seus filhos e quer a volta da internação como prioridade. O Poeta foi duro... Contudo, a resposta de vários colegas do meu campo de trabalho foi para mim por demais dolorosa de ler... Ataques ao Poeta com uma dureza maior ainda... Será que o Poeta não pode pensar diferente? Será que todos têm que concordar com a lei 10.216 para serem aceitos? Será que devemos responder à dor de um pai com a mesma dureza com que a sua dor se fez revelar? Será que o nosso campo considera o ideário da reforma psiquiátrica como um dogma incontestável?
Fico pensando se os filhos do Poeta receberam a ajuda necessária de nós profissionais. Fico pensando em quantos familiares não partilham das idéias de Ferreira Gullar e se conseguiremos ganhá-los para o nosso modo de tratar fora de internação, com intensidade de cuidado nos CAPS. Imagino o quanto ainda temos que lutar para mostrar para a sociedade como um todo que a lei 10.216 é uma conquista fantástica e que nós precisamos dos familiares para conseguir mais avanços ainda na reforma psiquiátrica brasileira. Fico pensando na minha amiga Palestina e na sua dolorosa filiação a uma política do ódio. Não podemos responder à dor de um pai, ainda que reacionário na sua forma de pensar, com política do ódio. Isso vai de encontro ao essencial de nosso trabalho: a aceitação da diferença e o respeito a ela. Não temos que concordar com o Poeta, mas acolher sua forma de pensar como possível, abrir o diálogo, aceitar que nosso campo pode ter falhado com ele e propor alternativas. Novos orientes médios se fazem todos os dias quando dogmas se colocam como a forma de entender a vida .... Dogmas não entendem de vida, não respeitam a diferença...Eles produzem morte e devastação!

sábado, 11 de abril de 2009

Não há Mocinhos nem Vilões



Hoje saiu na Veja online uma matéria do Marcelo Marthe criticando a novela das oito por demonizar os pais, através das histórias do Zeca e do Tarso... Uma amiga me enviou o link. Com todo respeito às opiniões diferentes, permito-me discordar e discorrer sobre isso... O título da matéria do Marcelo é "Família é a Vilã". Pretendo aqui discutir que, no que tange à loucura, não há necessariamente mocinhos nem vilões.
Tudo o que somos tem a ver com o que vivemos e nos identificamos subjetivamente ao longo da vida. Assim, somos o que fizemos daquilo que fizeram conosco. Nossas relações com tudo e todos e, significantemente com nossos pais, têm fundamental importância em nosso amadurecimento emocional.
A novela Caminho das Índias com seus personagens Zeca e Tarso em nada pretende demonizar pais, mas suscitar reflexões. Como já escrevi em outra postagem, acredito que vivemos numa época de falência do processo civilizatório, o qual pretende controlar os instintos de todos os homens. Zeca revela uma família que o cria sem limites, mas uma escola que também mostra suas dificuldades ao não conseguir produzir nele e em seus pais uma mudança de posição. A falência é de todos e a denúncia interessa para que possamos pensar.
Agora enfocando principalmente o personagem Tarso, digo que seu quadro de esquizofrenia não pretende apontar que a loucura é causada pela família. O próprio Tarso demonstrou sua impossibilidade de sair do controle dos pais. Sua irmã Inês encontrou um caminho, ainda que bizarro. Ele não. O sujeito tem a ver com sua própria loucura, assim como esta tem conexões com aquilo que vivenciamos com nossos pais, amigos, projetos, amores. As causas da esquizofrenia ainda não foram totalmente elucidadas. Supomos tratar-se não de uma doença única, mas de uma síndrome com diferentes etiologias. Um modelo explicatório aposta em determinantes biológicos, emocionais e sociais. Melissa e Ramiro, pais de Tarso, contribuíram com suas pressões para a loucura do filho, mas não foram seus causadores. Eles amam o Tarso e nunca quiseram seu mal. Apenas não levaram em conta os desejos do filho e não avaliaram as conseqüências de suas estranhas formas de amar. Muitos pais fazem isso e a novela serve de alerta. Isso esclarece e não demoniza!
Um contraponto importante vem da família de Ademir, o outro personagem que sofre de esquizofrenia. Sua mãe é extremamente participativa, compreende seu filho, o apóia em tudo e valoriza sua conquistas. Ainda assim, Ademir enlouqueceu... Outras questões provavelmente atravessaram seu caminho e o levaram a uma encruzilhada emocional e ao enlouquecimento. Portanto, a novela mostra diferentes processos e evidencia a multiplicidade de fatores envolvidos no desencadeamento de um quadro psicótico.
O maior objetivo de Glória Perez e de toda a equipe da novela é ajudar a diminuir o estigma contra aqueles que sofrem com esquizofrenia. Isso é um grande mérito. Glória se deixou tocar e sensibilizar por um tema bastante difícil. Demonizar quem quer que seja está longe de ser a proposta da trama, ela quer justamente o contrário... Humanizar os loucos, mostrar seu sofrimento e o de suas famílias, demonstrar o processo de enlouquecimento, enfatizar a possibilidade de recuperação pelo viés do tratamento e apontar as capacidades das pessoas que sofrem com transtorno mental.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Maldade não é Loucura


Coisa difícil é conseguir que o grande público diferencie perversão de loucura. Uma amiga me ligou outro dia para falar disso. A novela tem ajudado muito quando coloca um personagem psicopata, a Ivone e dois personagens esquizofrênicos, o Tarso e o Ademir. Dá para ver a diferença.

Contudo, no caso do Monstro da Áustria, a situação fica complexa quando a sentença de prisão perpétua deverá ser cumprida em uma instituição psiquiátrica. Esse homem que enclausurou a própria filha para submetê-la aos seus desejos e caprichos; que deixou um filho-neto morrer; que conseguiu burlar tudo e todos, talvez com a conivência da esposa, e teve sucesso em manter um confinamento por mais de duas décadas... Esse homem tem uma enorme capacidade de dissimulação, é pragmático, racional, sistemático, organizado, extremamente hábil e ignora a dor dos outros. Esse homem não é louco. Ele é mau, é perverso. Um psicótico não tem essa capacidade de articulação e pragmatismo, exatamente porque no momento da loucura ele está fora de si, dominado por sintomas. Muito difícil é que um louco consiga não mostrar que está louco. Uma psiquiatra que avaliou Josef Fritzl depôs sobre seu comportamento violento e perverso e não atestou doença mental. Ainda assim, esse homem irá cumprir pena numa instituição para doentes mentais.

O Monstro da Áustria não é um monstro, ele é um ser humano. Ele é mau, mas é humano. Seres humanos como ele e tantos outros demonstram a existência de um potencial terrível na condição humana. Como Freud diz, a pulsão de mais difícil controle é a pulsão perversa ... A civilização serviu para o controle das pulsões. Hoje em dia estamos em crise no que diz respeito a isso. Na pós- modernidade, as pulsões perversas estão encontrando muito pouco freio. Desumanizar Josef Fritzl ou mandá-lo para uma instituição psiquiátrica reforçando um imaginário social que associa maldade à loucura em nada ajuda a humanidade a encontrar nele um exemplo que exige muita, mas muita reflexão!

domingo, 15 de março de 2009

Quando a Loucura Quebra a Dor


Hoje vivi um momento muito interessante e para mim especial. Um dos moradores do meu projeto de moradias assistidas, o D., ficou doente e acabou internado num CTI. Fui visitá-lo acompanhada de seu colega de casa, o A. Ele é esquizofrênico e um homem simpático, um bom pintor e adorável pessoa.
A. não pôde entrar no CTI. O horário de visita havia acabado. Só eu pude entrar, pois sou médica. Fiquei um certo tempo lá dentro. Quando entrei, a sala de espera estava repleta de pessoas entristecidas, afinal quem estava ali tinha alguém que ama num CTI. Vi pessoas com lágrimas nos olhos e rostos cansados. Quando sai o clima estava totalmente diferente ...
A. é um grande contador de histórias ... Ele ficou ali me esperando e contando histórias para as pessoas. Quando abri a porta do CTI ouvi risadas e isso me surpreendeu... Quando entramos no elevador A. me disse que resolveu alegrar as pessoas ... Na sua loucura A. fala com todo mundo, puxa assuntos, não tem vergonha. No meio de tanta tristeza, ele com suas histórias, desviou toda aquela gente de sua dor... Deu a elas algum motivo para sorrir... Ele mesmo me disse que uma moça que antes chorava, agradeceu-lhe por tê-la feito sorrir.Tão bonito ver que, por vezes, a loucura ajuda na produção de alegria... Sua falta de inibição, sua fala sem parar, suas histórias exageradas podem ter vários nomes técnicos num exame psicopatológico, mas ali seu jeito louco de ser não foi visto como doença, foi sentido como algo que interrompeu, por alguns minutos, o sofrimento de muita gente... A loucura também tem esse lado mágico; é preciso dar uma chance ao sujeito que enlouquece para transformar o que é devastador em suavidade. A. é um exemplo de como isso é possível.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Poema Concreto


Esse é um poema concreto de Sônia Figueiredo ... Estávamos na mesa do almoço quando um colega artista chegou com um livro. De repente, um outro amigo me mostra esse poema totalmente impactado. Num primeiro momento não entendi, mas ele me sinalizou os sinais de positivo ... Captei tudo e também fiquei impactada.

O título é Racismo... A lei da física diz que os opostos se atraem ... Os iguais se estranham, se rechaçam ... Disso fala a poeta sem escrever uma palavra... O desenho é pleno de sentido. Toda discriminação é algo que acontece entre pessoas, entre seres humanos que não suportam as diferenças. Contudo, diferenças não apagam o que há de mais comum entre nós: a humanidade. Pretos, brancos, amarelos, loucos ou não somos todos diferentemente iguais! Desejo que um dia possamos subverter a lei da física, revolucionar a natureza através de uma transformação cultural que possibilite que a igualdade atraia!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

E Algo Começa a Acontecer...


A novela começou ... Devagar, devagarzinho algum impacto no estigma se inicia.

Um dos meus pacientes, trabalhador e sambista, sobre o qual publiquei uma postagem mais abaixo apareceu no capítulo 6. Estava numa oficina de pintura e apareceu como um paciente real. Interagiu com a Totia Meirelles que, por sinal, tem sido maravilhosa nas cenas com os clientes: acolhedora, tranquila, afetiva...

Na segunda feira seguinte, ele chegou para trabalhar no supermercado PREZUNIC e... Foi um sucesso... Chamado por todos de Helton Maravilha... Nome com o qual se apresentou na cena... Reconhecido como ator da Globo e Sambista. O fato de ter aparecido como uma pessoa que tem transtorno mental não foi o que marcou sua rápida aparição na novela.

Hoje me ligou minha sócia. Temos um cliente cuja filha reside em uma das moradias assistidas que gerenciamos. É uma jovem linda e esquizofrênica. O pai recebe um reembolso de sua empresa para custear as despesas da moradia. A empresa não aceita fazer o reembolso integral. Minha sócia argumentava, quando a moça da empresa comentou sobre a novela. Minha sócia enfatizou o sofrimento da doença e as dificuldades das famílias. A moça comentou que gostaria de conhecer a moradia e vamos marcar uma visita! Talvez nosso cliente consiga ter o seu reembolso integral...

Vamos seguir assistindo, acompanhando tudo o que acontece... Desde já, de fato, começo a perceber um movimento deveras interessante!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os Dados do Estigma

Londres, 20 jan (EFE).- Estudo divulgado pela revista médica britânica "The Lancet" informou que 43% das pessoas que sofrem de esquizofrenia sofrem algum tipo de discriminação por parentes ou amigos.A pesquisa liderada pelo professor Graham Thornicroft, do Instituto de Psiquiatria do King's College London, mostrou que os casos de intolerância são mais comuns no ambiente familiar e na hora de procurar emprego.O estudo é resultado de 732 entrevistas com esquizofrênicos de 27 países diferentes. De acordo com os especialistas, 64% dos participantes disseram ter experimentado a chamada "discriminação prévia" e desistiram de procurar emprego por medo de sofrer preconceito no processo seletivo.Já 55% dos entrevistados admitiram ter vivido este mesmo tipo de discriminação quando tentavam iniciar um relacionamento amoroso.O estudo disse que 43% dos ouvidos sofreram com o preconceito na família, enquanto 47% se sentiram discriminados quando tentavam conhecer pessoas ou manter amizades. Além disso, 27% sofreram com este problema durante uma relação sexual.Por outro lado, os especialistas informaram que apenas 5% dos entrevistados admitiram que a doença lhes favoreceu em alguma situação."As taxas de discriminações prévia e negativa são muito altas entre os esquizofrênicos", disse um dos autores do estudo.Os pesquisadores afirmaram que as medidas para combater o preconceito, como as leis de proteção aos incapacitados, "não tem o efeito esperado quando não se trabalha a auto-estima destas pessoas".

domingo, 11 de janeiro de 2009

Festa Também É Inclusão!


Dia 19 começa a novela Caminho das Índias e, assim, será dada a largada para a Campanha Social pelas pessoas que sofrem com doença mental.
Ontem, na festa de lançamento da novela, usuários de Saúde Mental estavam presentes, convidados formalmente pela própria Glória Perez. Lá compareceram como artistas, músicos do grupo Harmonia Enlouquece e não como pacientes.
Muito bonito vê-los lá, felizes e super incluídos. A Campanha começa bem!