O personagem Tarso, vivido brilhantemente pelo Bruno Gagliasso, tem dado muito o que falar. Todos os dias na minha sala, eu recebo clientes que vêm comentar comigo sobre as cenas da novela. Sentem-se identificados com o que Tarso está passando e felizes por estarem sendo vistos como pessoas que adoeceram e sofreram muito, trincando o imaginário social para o qual os esquizofrênicos são todos violentos e perigosos.
Bruno, com sua atuação perfeita, tem produzido em muitos que assistem à novela, uma vontade de cuidar. Ouço as pessoas dizerem que gostariam de ajudá-lo, que desejariam convencer seus pais a aceitarem o tratamento. Tarso tem despertado mais ainda a curiosidade sobre a doença e seu processo de desencadeamento. A loucura produz horror, mas através da novela tem produzido empatia e curiosidade. Pelo menos, esse é o retorno que tenho recebido!
A que se deve o sucesso da atuação do Bruno? Tive a oportunidade de acompanhar o ator durante a gravação para a matéria do Fantástico. Infelizmente, não usaram o que de melhor ele falou. Bruno conviveu de perto com pessoas que sofrem de esquizofrenia, dividiu momentos importantes com Hamilton, grande cantor e compositor do Harmonia Enlouquece e se inspirou nele para compor o Tarso. Bruno falou sobre sua própria travessia ao superar seus preconceitos, disse ser amigo de Hamilton e que nunca tinha tido um amigo esquizofrênico antes. Bruno mostrou seu envolvimento com a campanha social e acredita que seu personagem tem a tarefa de dar um golpe no estigma. Bruno revelou um compromisso com todos que convivem com a doença mental esquizofrenia. Boa parte de sua brilhante atuação, na minha opinião, deve-se ao respeito do ator pelos portadores da doença.
Talvez Bruno não tenha ainda idéia do que está fazendo... Eu também não sei o tamanho do impacto da novela, por isso pretendo pesquisar esse aspecto como parte do meu doutorado. O que penso, por agora, tem relação com o que Goffman coloca em seu livro sobre estigma. No livro, o autor aponta a possibilidade de três tipos de estigma: das abominações do corpo, das culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca ou não naturais, dentre elas, a prisão, o vício, o distúrbio mental, o homossexualismo e os estigmas tribais de raça, nação e religião. Goffman acentua que o processo de estigmatização tende a passar pela crença de que alguém com um estigma não é completamente humano. Focando apenas o grupo do estigma das culpas de caráter individual, dentro do qual Goffman coloca a loucura, penso que esse grupo mais do que os outros conta com mecanismos psicológicos. Portanto, imagino que o sucesso de Tarso tenha relação com a construção de um olhar sobre o louco que o HUMANIZA, confrontando o mecanismo de desumanização que Goffman descreve. Bruno tem sido extremamente eficaz em mostrar um Tarso humanizado, sem exageros, sem caricaturas, sem pieguice ... Isso toca no processo de estigmatização, incidindo sobre um dos seus elementos geradores, justamente a crença de que loucos não são completamente humanos. Tarso está produzindo dúvidas sobre isso e é ai que eu acredito que ele esteja iniciando um golpe no estigma!!
Há ainda muito por acontecer! Tarso tem um longo caminho pela frente. Desde já, partilho com vocês minhas primeiras elaborações e principalmente minha alegria de ver a novela e Bruno com tanto sucesso!!!